Zen and the Art of Machine Knitting

“A vontade tem que ser escondida se não mata o nervo vital do que se quer.”

(Clarice Lispector)

Trabalhar com uma máquina de tricotar, qualquer máquina, implica um processo de aprendizagem complexo que leva o seu tempo até atingir o ponto em que o operador e a ferramenta funcionam como uma única entidade, chegando a uma espécie de osmose.

É, no fundo, um processo de concentração, de abertura à concentração, que em si é um fenómeno complexo e paradoxal porque implica ao mesmo tempo tensão e relaxamento, presença e ausência.

No clássico O Zen na Arte do Tiro ao Arco, obra de um professor de filosofia alemão – Eugen Herrigel – publicada em 1948 e que descreve a sua experiência de aprendizagem de uma técnica japonesa específica de tiro ao arco, a ideia central é a de que através do exercício persistente, qualquer atividade física passa a ser executada sem esforço mental e físico, como se o nosso corpo treinado fosse capaz de executar movimentos complexos e difíceis sem o controlo consciente da mente.

Ao longo dos anos foram surgindo uma série de obras semelhantes que para além de parafrasearem o título da obra de Herrigel (entre as mais famosas contam-se Zen and the Art of Motorcycle Maintenance, de Robert Pirsig; Zen and the Art of Writing, de Ray Bradbury; mas também títulos de cariz mais paródico como Zen and the Art of Poker, Zen and the Art of Knitting) encaravam diferentes áreas de atividade sob uma perspetiva próxima da do autor alemão, afastando-se de alguma forma da visão quase mística de Herrigel, mas enfatizando as questões metodológicas e processuais de aprendizagem e prática de uma certa técnica.

Aprender a trabalhar com uma máquia de tricotar, como provavelmente acontecerá com o domínio de outras ferramentas, implica aquilo a que se convencionou chamar “uma ampla curva de aprendizagem”. Mais do que o domínio sobre as componentes mecânicas da ferramenta, o que está muitas vezes em causa é um conjunto complexo de variantes, tais como a tensão a que o fio entra na máquina, o ritmo e a velocidade que se imprimem à passagem do patim sobre o leito de agulhas, a atenção constante ao trabalho que sai da máquina… Tal como já me tinha acontecido com a máquina de costura, a pressa é inimiga da perfeição e o reisistir à tentação de trabalhar a grande velocidade é um dos aspetos mais difícieis do processo. Afinal, trata-se de uma máquina e a nossa expetativa é poder trabalhar o mais rápido possível!

A questão da nossa relação com a tecnologia é hoje quase omnipresente e constantemente chamada a diversos espaços de debate. Embora não partilhe das visões do mundo que demonizam todo e qualquer avanço tecnológico, vendo nestes uma ameaça a um modo de vida que é, também ele, resultado de outras tantas invenções tecnológicas, tenho bem presente que a tecnologia é tudo menos assética e altera profundamente a nossa maneira de estar na vida. Basta pensar que uma tecnologia como a escrita, potenciada mais tarde pela invenção da impressão, foi responsável por mudanças profundas na consciência dos indíviduos, afastando-os progressivamente de um mundo dominado pela cultura oral com pressupostos completamente diferentese e até antagónicos aos do mundo criado pela possibilidade de registar em suporte duradouro não só as quantidades de cereais em armazém, mas também os nossos sonhos, os nossos projetos e as nossas rimas.

Não deixa, no entanto, de ser curioso que, numa época de intensa reinvenção tecnológica como aquela em que vivemos se volte muitas vezes atrás no tempo para retomar técnicas e ferramentas caídas em desuso e que voltam a revelar-se pertinentes. A aplicação da técnica de impressão a 3 dimensões às máquinas de tricotar como forma de promover um serviço de produção de peças de roupas 100% costumizáveis é apenas um dos epifenómenos que têm surgido nos últimos tempos em torno do renascimento ou redescoberta das máquinas de tricotar caseiras.

Embora não ofereça o mesmo nível de relaxamento que tricotar manualmente permite, a máquina de tricotar revela-se um desafio constante, que com a adição das novas tecnologias se torna ainda mais complexo e rico de possibilidades.

A questão da concentração, no entanto, continua sempre a colocar-se com a mesma intensidade e, nos melhores momentos de colaboração entre homem e máquina, não é o misticismo difuso de Herrigel que me vem à cabeça, mas sim o de Clarice Lispector:

“Quando eu me concentro me concentro sem querer e sem saber como consigo, mas consigo independente de mim. Ou melhor: acontece. Mas quando eu mesma quero me concentrar então distraio-me e percorro-me no “querer” e passo somente a sentir o querer que vem a ser o objetivo. E a concentração não se faz. A vontade tem que ser escondida se não mata o nervo vital do que se quer.”

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“The will has to be hidden or else it kills the vital nerve of what you want.”

(Clarice Lispector)

To work with a knitting machine – any machine for that matter – implies a complex learning process that takes its time to reach the point where the operator and the tool work as a single unit, attaining a kind of osmosis.

It’s really a concentration process, an opening up to concentration, which in itself is a complex and paradoxical phenomenon because it implies tension and relaxation, presence and absence.

In the classic Zen and the Art of Archery, published in 1948, a German philosophy professor – Eugen Herrigel – describes his experience in learning a specific Japanese archery technique. The fundamental idea in the book is that through persistent exercise any physical activity can be executed without mental and physical effort, as if our body was capable of executing difficult and complex movements without the conscious control of the mind.

Through the years, a lot of similar titles appeared that not only quoted Herrigel’s title (amongst which were Zen and the Art of Motorcycle Maintenance, by Robert Pirsig; Zen and the Art of Writing, by Ray Bradbury; but also books that were a little more of a parody like Zen and the Art of Poker, Zen and the Art of Knitting) but also applied his vision to different activities, moving away from the German author’s almost mystical take but emphasizing methodological and procedural questions of learning a certain technique.

To learn how to work with a knitting machine, as it will very likely happen with controlling other tools, implies what is conventionally called a “big learning curve”. More than getting the hang of the machine mechanics, what is most important is a large set of variants, like the yarn feed tension, the rhythm and speed at which the carriage runs over the needle bed, the constant attention to the fabric being produced… Just like it had already happened before with the sewing machine, hastiness can compromise the quality of work and resisting the temptation of working full speed is one of the most difficult lessons to learn. After all, it’s a machine and it’s supposed to work fast!

Questioning our relationship to technology is an ongoing discussion theme in different forums. Although I don’t share the world visions that demonize every and any technological progress, seeing them as a threat to a way of life – which is itself a result of lots of other technological advances –, I am quite aware that technology is everything but aseptic and completely changes our way of life. We only have to think of how a technology like writing was responsible for the dawn of a new individual consciousness, progressively taking us away from a world dominated by oral culture with its completely different and even antagonistic assumptions to the world created by the possibility of registering in a durable support not only the amount of grains in the barn, but also our dreams, projects and rhymes.

Nevertheless, it’s still surprising that in a day and age of intense technological reinvention like the one we live today we end up going back in time to reclaim technics and tools that were left behind and end up making sense again. The application of 3D printing to home knitting machines as a way of promoting a production service of bespoke garments is just one of the many phenomena that have emerged recently around the rediscovery of home knitting machines.

Although a knitting machine doesn’t offer the same relaxed experience as hand knitting it’s an ongoing challenge that the addition of new technologies makes even more complex and rich in possibilities.

The concentration problem is always present and intense and at the best moments of collaboration between man and machine, and when that takes place it’s not Herrigel diffuse mysticism that often comes to my mind but Clarice Lispector’s:

“When I concentrate I concentrate without willing or knowing how to do it, but I manage to do it, regardless of myself. Better still: it happens. But when I want to concentrate then I get distracted and I loose myself within the “will” and I only feel the wanting which then becomes the objective. And the concentration doesn’t take place. Will has to be hidden or else it kills the vital nerve of what you want.”

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Trabalha para ti / Work for yourself

A seguir à morte recente de uma tia, coube-nos a tarefa, a mim e aos meus irmãos, de “fechar” um apartamento cheio de inutilidades, mas também de pequenos tesouros como este livro com um título premonitório: Trabalha para ti.

Premonitório para mim porque andava desde o início da “crise” empenhada num processo de sobrevivência mais do que financeira verdadeiramente existencial. Ou seja, tive a sorte extraordinária de a minha crise da meia-idade coincidir em todo o seu esplendor com a “Crise” e embora ainda não tenha resolvido a primeira e não veja jeitos de se resolver a segunda continuo empenhada nesse processo, de que o projeto da Oficina das Malhas é a face mais evidente.

A minha tia foi uma daquelas mulheres que viveu a vida inteira sem ter um “emprego”, como hoje o entendemos, mas como muitas mulheres da sua geração – morreu com mais de 90 anos – não sabia o que era estar parada e arranjava sempre com que se entreter, fosse costurar, arrumar um armário já arrumado ou atravessar meia cidade para poupar 5 cêntimos num par de luvas de borracha. No entanto, estou convencida que o livro em questão não seria verdadeiramente seu, mas do meu avô materno (esta tia era a irmã mais velha da minha mãe), um homem que teria vivido de rendimentos de propriedades agrícolas e industriais mas que por razões pelas quais seria mais ou menos responsável acabou por ficar dependente desta filha solteira que o arrastou de Odemira no Baixo Alentejo para o Porto no encalço da sua irmã mais nova.

O meu avô Aníbal era uma personagem curiosa que ao contrário do que nos faz pensar a nossa cultura de europeus do Sul supostamente imersos num sistema patriarcal vivera sempre uma vida de uma certa indulgência na sombra de mulheres industriosas que nunca paravam quietas. Era um homem engenhoso que tanto esculpia baixos-relevos em cortiça como transformava um pedaço de plástico num dente falso que arranjara maneira de encaixar entre dois dentes ainda saudáveis. Trabalha para ti devia ter chamado à atenção deste homem que não consigo imaginar a submeter-se à rotina de um “emprego” ou à autoridade de um “patrão”!

Sem querer entrar na referência a chavões como “empreendedorismo” e “pro-atividade” – que têm muitas vezes um aproveitamento político e são por isso usados de uma forma demagógica – achei extraordinário que um livro editado em 1958 formulasse já de uma forma tão cândida uma série de respostas a uma questão que muitos hoje se colocam, entalados entre a perspetiva de um emprego frustrante e mal remunerado e a necessidade de inventar um projeto pessoal que lhes permita na pior das hipóteses manter algum poder ainda que incipiente sobre as suas vidas.

Hoje em dia, o problema do trabalho – por si só ou na sua relação tensa e não rigorosamente permutável com o “emprego” – transformou-se numa questão política perdida entre obstinações ideológicas e expectativas de vida profundamente ligadas a formas de vida em que o trabalho/emprego se afirma ainda como um pilar fundamental da identidade individual.

O que um livro como Trabalha para ti nos diz do fundo da arca em que estava escondido não é muito diferente da mensagem que podemos ler nos muitos cursos e ações de formação dedicados ao empreendedorismo: a vontade persistente que continuamos a ter de recuperar o controlo sobre as nossas vidas, particularmente sobre as nossas vidas como trabalhadores nas quais – para o bem e para o mal – investimos tanto do nosso tempo e da nossa energia.

Perante um sistema – nomeadamente fiscal – que se desenha cada vez mais como uma força repressiva ao ponto de ter transformado o “emprego” numa ferramenta de alienação que a muitos níveis não se afasta muito de um regime de escravatura, é cada mais urgente procurar alternativas de vida que devolvam ao trabalho a sua dimensão humana e de realização pessoal.

Ganhar a vida tem de ser mais do que perder!

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Following the recent death of an aunt, me and my brothers were left with the task of empting out an apartment full of useless stuff but also some small treasures like this book with a very prescient title: Work for Yourself.

Prescient for me because from the beginning of the “crisis” I was committed to a survival process that more than financial was truly existential. In other words, I had the extraordinary piece of luck of having my middle age life crisis coincide in all its splendor with the “Crisis” and although I still haven’t sorted out the first one and nor do I see the latter coming to an end either I’m still committed to this process, of which the Knitting Workshop is the most visible face.

My aunt was one of those women that lived all her life without having a “proper job”, but as many women her generation – she lived to be older than 90 – she couldn’t keep still and would always find something to do, whether a bit of sewing, clear up a cupboard that was already cleared or walk half way across town to save 5 cents on a pair of rubber gloves. Yet, I’m convinced that the afore mentioned book wasn’t really hers but my maternal grandfather (this aunt was my mother’s eldest sister), a man that might have lived off agricultural and industrial properties who for reasons for which he could have been or not responsible ended up being dependent on this maiden daughter that dragged him from Odemira in Alentejo (in the South of Portugal) to Porto (in the North) in pursuit of her younger sister.

Aníbal, my grandfather, was a curious character that unlike our strongly patriarchal Southern European culture makes us believe always lived in a certain indulgent manner, in the shadow of highly industrious women that couldn’t seat still. He was an ingenious man that could sculpt low reliefs in cork or make a fake tooth out of a piece of plastic that he then managed to stick in between two healthy teeth. Work for Yourself must have caught the attention of this man that I can’t imagine submitting to the routine of a “job” or the authority of a “boss”!

Without meaning to make a reference to such terms as “entrepreneurship” or “pro-activity” – that are so often politically used and abused – I thought it was extraordinary that a book published in 1958 would formulate answers to a question that so many of us are faced with today, stuck between the prospect of having a meaningless and poorly paid job and the need to create a personal work project that will allow us, at worst, to keep some form of power over our lives, even if an incipient one.

Today, the problem of work – by itself or in its tense and not necessarily interchangeable relationship to a “job” – has become a political question lost between ideological stubbornness and deeply rooted life expectations in which having a job is a fundamental part of individual identity.

What a book like Work for Youself tells from the bottom of the trunk in which it was hidden it’s not very different from the message we can read in the proliferation of training programs around “entrepreneurship”: our everlasting and persistent will to regain power over our lives, particularly our working lives on which – for better or worst – we invest so much of our time and energy.

Facing a system – particularly a fiscal system – that works more and more as a repressive force to the point of transforming “jobs” into a tool of alienation that for so many of us doesn’t differ much from a slavery regime, it’s more urgent than ever to look for lifestyle alternatives that will bring work back to a more human dimension of personal fulfillment.

To earn one’s living has to be more than to waste it!

Mervyn Peake

Neither be afraid of the unorthodox subject nor in finding delight in the contemplation of commonplace things. Anything, seen without prejudice, is enormous.

Não temas nem os temas menos ortodoxos nem o prazer de contemplar as coisas mais vulgares. Seja o que for, quando encarado sem preconceito, é enorme.

Matemáticos amorosos/ Amorous mathematicians

Numa conversa entre Clarice Lispector e Tom Jobim, Clarice perguntou a Tom qualquer coisa do género se achava ele que o amor não era mais do que uma equação perfeita. Tom respondeu, fugindo de alguma forma à questão, que sempre fora “um matemático amoroso”.
A tricotar e a ver o documentário feito sobre a reposição de Kontakhof(Tanzträumer) de Pina Baush, ocorreu-me que o mundo está cheio de matemáticos amorosos, que poderão ou não acreditar que o amor é uma equação perfeita.

Tricotadeiras que contam as malhas de liga e meia nas suas cabeças, bailarinos que marcam o compasso das músicas pautadas pelos músicos, esses outros matemáticos amorosos.
Tudo são números, entoados mentalmente ou em surdina. Tudo por amor.
Não faço ideia se esta seria a intenção por detrás da resposta de Jobim, mas esta é a minha forma de juntar um mais um.

In a conversation between the Brazilian writer Clarice Lispector and the inventor of Bossa Nova Tom Jobim, Clarice asked Tom whether he thought love was no more than a perfect equation. Tom answered back, somehow avoiding the question, that he had always been “an amorous mathematician”.
Watching the documentary on Pina Bausch’s Kontakhof (Tanzträumer) while knitting it occured to me the world is full of amorous mathematicians, that might or might not believe that love is a perfect equation.
Knitters counting the knit and purl stitches in their heads, dancers following the bit of a music line, the musicians who play that very same music. All of them amorous mathematicians…
The world if full of numbers, silently counted in our heads or barely whispered. All for love.
I have no idea if this was what Jobim ment with his answer but this is how I always put the two and two together.

Moodboards, how I love thee! Let me count the ways…

Penso que o termo moodboard esteja particularmente ligado ao mundo da moda e sirva para classificar o processo de brainstorming visual que antecede a definição e a produção de uma determinada coleção.

Sendo uma rapariga com uma vocação particularmente visual, apercebo-me que sempre construí moodboards e lamento profundamente ter deitado ao lixo os manuais escolares desatualizados em que nos idos anos 80 colei muitas imagens recortadas de jornais e revistas.

Antes dos 12 anos, quando ainda não era cool, estes repositórios estavam cheios de fotografias e artigos sobre bandas como os Duran, Duran, os Police ou as mais insignificantes saídas à rua da princesa Carolina do Mónaco! (Eu sei, eu sei, “atirem-me água benta!”, como diria o Reininho.) As coisas melhoraram um bocado a partir daí, graças aos amigos que ouviam Echo and the Bunnymen, aos namorados que deliravam com os Smiths e aos irmãos mais velhos que enchiam a casa de revistas como a Photo ou os Cahiers du Cinéma! (Muitos pontos acima, como se pode ver!)

Chega de conversa de mole!Moodboard1

Isto tudo para voltar à máquina de tricotar e a um projeto pessoal. Este: pôr na máquina o fio da Ovelha Negra, o Victoria, e criar uma camisola para mim que me leve de volta aos anos 40, de onde eu nunca devia ter saído.

Work in progress. Ou, para os amigos, WIP!

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I assume the term moodboard is particularly connected to the fashion world and is used to classify the visual brainstorming process that precedes the definition and production of a particular clothing line.

Being the visual girl that I am, I realized that I have always built moodboards and I deeply regret throwing away the outdated school books I’ve used back in the 80s as a sticking board for images recovered from newspapers and magazines.

Before I was 12, when I still wasn’t cool, these collections were full of photos and cut outs about bands like Duran, Duran and Police and the most insignificant street ventures of Princess Caroline of Monaco! (I know, I know, “throw holly water on me”, like the Portuguese 80s star, Rui Reininho, would say.) Things improved a bit from then on, thanks to friends who listened to Echo and the Bunnymen, boyfriends who loved the Smiths and older brothers filling the house with magazines like Photo or Cahiers du Cinéma! (Many more points scored here, as you can see!)

Enough small talk!

All of this to go back to the knitting machine and a personal project. This one: use Ovelha Negra’s latest bet – the yarn Victoria – to produce a sweater that will take me back to the 1940s from where I should never have left.

Work in progress. Or, between you and me, WIP!

Porquê uma máquina de tricotar?/Why a knitting machine?

Conta-se que nos idos anos 70, 80 e 90, antes que nos chegassem as malhas produzidas em quantidades industriais pelos operários asiáticos e sul-americanos, muitas mulheres portuguesas trabalhavam em casa nas suas máquinas de tricotar, produzindo uma enorme variedade de malhas para os mais diversos fins, mas alimentando muito particularmente uma indústria de moda que funcionava então razoavelmente apoiada nesse registo de indústria caseira.

Com a exceção de algumas bolsas de atividade que se foram mantendo vivas, esta rede de operariado informal e caseiro extinguiu-se de uma forma quase brutal em finais dos anos 90 e as máquinas foram arrumadas em garagens ou em quartos de arrumos ou vendidas a quem as quisesse levar para oficinas ainda em funcionamento que em breve também veriam o seu trabalho condenado.

Esgotada a novidade do pronto a vestir de baixo custo e de baixa qualidade, em tempos de crise em que se procura que aquilo que se compra traga garantias de qualidade, durabilidade e originalidade, as máquinas de tricotar oferecem novamente uma alternativa viável à produção massificada de peças de malha.

Não são mais rápidas que a própria sombra, mas sempre são um pouco mais rápidas do que um par de agulhas ainda que não se substituam à maravilhosa tarefa que é tricotar à mão!

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It’s said that back in the 70s, 80s and 90s of the previous century, before the arrival of mass produced knitted garments made by Asian and South American factory workers, a lot of Portuguese women worked from home in their knitting machines, producing an enormous variety of knitted goods for different purposes, but more particularly to feed the fashion industry that somewhat was partly supported by this cottage industry segment.

With the exception of some pockets of activity that kept on going, this informal net of cottage industry workers was brutally extinguished by the end of the 1990s and the knitting machines were put away in garages, storage rooms or sold to those you might want to take them to the workshops still working which very soon would equally see their endeavors condemn.

Today, when the appeal of cheap and low quality ready-to-wear is coming to an end, in a time of crisis when most people look for purchases that will bring them guaranties of quality, durability and originality, one more time the knitting machine offers a viable alternative to the mass production of knitted products.

They are not faster than their own shadow, but they are a little bit faster than a pair of needles although they will ever hardly replace the wonderful task of knitting by hand!

In a far, far away galaxy…

Há muitos anos atrás, um dos meus irmãos partiu lá para fora para lutar pela vida. Entre as aulas na Sorbonne e os empregos ocasionais como caixa de supermercado, começou a tricotar num tempo em que as revistas francesas (como a Elle) apresentavam sempre como rubrica semanal uma fiche tricot, editava-se uma revista chamada 100 Idées e toda a gente dava às agulhas. Desse tempo, herdei muitos novelos de lã que raramente chegavam para fazer peças completas, quando eu ainda só acreditava em fazer camisolas.

Back in 1977, my brother Mário emigrated to France after a brief passage through England that didn’t go so well. After enrolling at Sorbonne and having various unimportant jobs as supermarket cashier or other he started on a short lived career as a knitter. This was back in the days when French fashion magazines would have a knitting pattern page (like Elle did) and magazines like 100 Idées were everywhere. Mário is the reason why I knit because suddenly our house was full of sample skeins of yarn of different colours and fibers and I had to do something about it.