Crafts, Design, Machine Knitting, Production, Prototyping
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Uma linda camisolinha!

Foto de / Photo by Matilde Viegas.

Sou aquela pessoa que olha para uma travessa de aletria e pensa: “Isto dava uma linda camisolinha!”. Depois sou ainda alguém que há cerca de oito anos, quase por impulso, comprou uma máquina de tricotar, uma Brother KH940 (um dos últimos modelos produzidos pela marca japonesa, já com sistema de padronagem digital). Antes de tudo isso, já gostava de tricotar à mão, com lã (a lã não me pica!) e tinha dificuldade em seguir modelos de tricot sem acrescentar um ponto ou dois, sem modificar isto ou aquilo, sem experimentar fazer mais comprido ou mais curto, mais largo ou mais justo. Uma máquina parecia-me uma bela promessa de produzir mais rapidamente as muitas ideias que me vinham à cabeça!

A Oficina das Malhas é, pois, um projeto “artesanal”, no sentido em se trata de uma produção de pequena escala muito longe dos parâmetros industriais: há uma máquina, mas, além de esta não trabalhar sozinha, fica ainda muito por resolver à mão. É um pequeno negócio adaptado às suas circunstâncias de produção. O que convida a alguma reflexão…

O tempo é o único recurso rigorosamente limitado e por isso o único recurso que sobrevive à especulação de tudo o que nos envolve!

Qualquer pessoa que nos dias que correm se proponha tentar ganhar a vida com um trabalho de produção artesanal depara-se com uma série de equívocos, o maior dos quais é certamente o que se prende com a desvalorização do trabalho manual, perante a qual a apetência recente pelo feito à mão é só mais uma manifestação perversa. A maior parte das vezes, quando não se confunde “feito à mão” com “mais barato”, não há sequer noção da quantidade real de horas de trabalho por detrás dos produtos artesanais que se compram.

Convenhamos, o trabalho de produção manual é o oposto da especulação burocrática a que a maior parte de nós estamos habituados no setor terciário. Temos pouca noção da ligação profunda da produção artesanal ao tempo e do tempo como único recurso rigorosamente limitado.

Tendo em conta este “registo de produção”, e para perceber em que ponto do eixo entre o puro diletantismo (por vezes ingénuo, por vezes dissimulado) e as grandes marcas de moda me queria e podia posicionar, houve que fazer uma avaliação atenta de propostas semelhantes em que se revelou que muito se peca por omissão e o ruído das hashtags em voga é mais vezes do que seria desejável usado para encobrir aspetos tão fundamentais como a origem da matéria-prima e dos seus processos de produção ou a verdadeira remuneração da mão de obra. Por muito difícil que seja é fundamental distinguir a informação da propaganda!

Que sentido faz trabalhar de graça ou aliciar outros a trabalharem em troca de tão pouco quando esse mesmo trabalho implica deveres que se não forem devidamente salvaguardados podem facilmente anular os seus benefícios? Para que serve investir horas de trabalho num produto de fraca qualidade? Qual a lógica de competir pelo preço com as grandes marcas de vestuário?

Até à atual omnipresença das malhas baratas, as máquinas de tricotar domésticas eram, à semelhança das máquinas de costura, uma ferramenta de apoio a uma economia familiar, permitindo produzir vestuário a preços acessíveis e adaptado ao gosto, morfologia e orçamento de cada um!

Esta coleção da Oficina das Malhas… Ou melhor, esta coleção “em aberto” da Oficina das Malhas é sobretudo o projeto de produzir peças de malha num registo de indústria doméstica com matéria-prima 100% natural, produzida em Portugal de uma forma não só ecológica como também eticamente responsável, num formato de comercialização do produtor ao consumidor, de forma a evitar custos que encareçam as peças para lá de um valor que – embora elevado para os nossos padrões atuais – não implique qualquer tipo de especulação e possa assim estar ao alcance de um maior número de interessados.

Depois de testados fios, “desenhos” e moldes e de muita prototipagem, a minha fotógrafa favorita, Matilde Viegas, aceitou o desafio de se juntar a mim e à Inês num dia de Inverno soalheiro na praia de Francelos. Et voilà!

I am that kind of person that looks at a dessert and thinks: “This would make a nice little sweater!”. Then I am also someone who, almost eight years ago, pretty much on an impulse, bought a knitting machine, a Brother KH940 (one of the last models produced by the Japanese brand, with a digital patterning system). Before all that, I loved hand knitting wool (It’s OK. Wool doesn’t bite me!) but had a hard time sticking to knitting patterns’ instructions without adding something different, modifying this or that, trying to make it longer or shorter, wider or narrower. A machine seemed like a beautiful promise to produce faster the many ideas that came to my mind!

Oficina das Malhas (Knitting Workshop) is, therefore, a craft project, meaning: a small-scale production far from an industrial setting: yes, there is a machine, but not only does it not work on its own as there is also a lot of work to be done by hand. It is a small business adapted to its production circumstances. Which makes me think …

Anyone nowadays who tries to make a living from craft is faced with a series of questions, the most important of which is the depreciation of manual labor. The recent obsession with hand-made products is just a twisted evidence of this same problem! When “handmade” is not confused with “cheaper”, there is no idea of the work hours behind the handcrafted products people buy. On the other hand, many small brands, craving visibility, or improvising solutions – such as using quasi-voluntary labor – embark on this same misunderstanding, perpetuating a vicious cycle of depreciation, despite their apparently opposed agenda!

Let’s face it, manual production work is the opposite of the bureaucratic speculation that most of us are used to in the tertiary sector. We have little or no idea of the deep link between craft and time and time is the only strictly limited resource we deal with.

Considering the dimension of a craft business I had to figure out where I wanted to be between pure dilettantism (sometimes naive, sometimes disguised) and the big fashion brands. I’ve soon realized the noise of the trending hashtags eventually gets too loud and hides fundamental questions like where did the raw material came from or how fairly is the work force being paid. It was difficult to tell the information from the propaganda!

What sense does it make to work for free or to entice others to work in exchange for so little when working entails duties that, if not properly safeguarded, can easily overshadow its benefits? What is the purpose of investing hours of work in a poor-quality product? What is the logic of competing for price with major clothing brands?

Oficina das Malhas knitwear pieces are made in a crafty, small scale production with 100% pure Portuguese wool, environmentally sustainable and ethically responsible, from producer to consumer, avoiding mediation costs to achieve the best price for the right consumers.

After testing yarns, “drawings”, patterns and a lot of prototyping, photographer Matilde Viegas accepted the challenge to join me and Inês on a sunny winter day at Francelos beach! Et voilà!

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