Passajar, cerzir, pontear, remendar, … o léxico português é generoso para nomear a recente redescoberta da arte de remendar, quer tecidos quer malhas. Remendar as nossas próprias roupas caiu em desuso perante o baixo preço da maior parte do vestuário, no entanto, numa altura de apelos redobrados a um consumo consciente quando os excessos da indústria da moda revelam a lamentável exploração laboral que os sustenta e se constituem como uma ameaça considerável para a sustentabilidade ambiental, a urgência de retomar estes velhos hábitos impõe-se com redobrada evidência.
Os Japoneses cultivam desde há séculos o conceito de kintsugi, a arte de recompor uma peça partida de cerâmica, recompondo a peça original de forma a que esta ostente assumidamente as suas cicatrizes. É um conceito que decorre da filosofia japonesa de wabi-sabi, que propõe a aceitação da imperfeição, do defeito e do transitório e se inspira na noção budista dos três alicerces da existência: impermanência (anicca), sofrimento (dukkha) e o não-eu (anatta). Trata-se no fundo de uma filosofia do despojamento, e aí reside o seu maior desafio numa época histórica em que o culto do indivíduo e da realização de todas as suas necessidades se tem vindo a afirmar…
No entanto, a frugalidade implícita nesta filosofia oriental não é de todo estranha à nossa condição de ocidentais, sendo mesmo a atitude por defeito até ao advento do vestuário produzido em grandes quantidades e a preços muito baixos que a chamada “globalização” económica introduziu nos nossos hábitos de consumo.
Durante a Segunda Guerra Mundial, mais precisamente em 1943, o Ministry of Information britânico publicou um guia recentemente reeditado (em 2007) pelo Imperial War Museum intitulado Make, Do and Mend com uma série de conselhos destinados a promover a longevidade do escasso vestuário a que os britânicos teriam acesso durante o conflito. Este livrinho contém ensinamentos que vão desde instruções para a lavagem das roupas, sugestões para o reaproveitamento de peças já fora de uso (a que hoje chamaríamos recycling ou upcycling), indicações sobre como guardar as peças de roupa de forma a protegê-las das traças (“The moth menace”) e da humidade, como tratar do calçado de forma a prolongar ao máximo o seu uso, bem como uma série extensa de conselhos para remendar peças ou reforçar as suas zonas mais frágeis, quer de roupas em tecido quer de peças em malha.
Ainda antes disso, Thérèse de Dillmont, a autora austríaca da Encycopedie des Ouvrages des Dames, publicada pela primeira vez pela DMC em 1886, tinha já dedicado nesta sua obra algumas páginas à reparação de peças de malha e os seus desenhos são uma referência valiosa e um testemunho histórico de práticas que já seriam à época verdadeiramente ancestrais.
Mais recentemente, artesãs como Celia Pym, Hikaru Noguchi, Flora Collingwood-Norris, Tom of Holland, Molly Martin e Kate Sekules, a mentora do #mendmarch, um evento organizado em torno da comunidade do Instagram para promover e divulgar a prática dos remendos criativos, têm dado uma contribuição valiosa a par de outros criativos e artesãos no sentido de sensibilizar os consumidores para a adoção de práticas regulares de poupança, no sentido de construir não só uma agenda de sustentabilidade ambiental mas acima de tudo uma agenda de sustentabilidade social, associando a prática do remendo de peças de vestuário ao respeito devido à mão de obra que a confeção implicou.





Darning, stitching, mending,… so many words to name the rediscovery of the art of mending, whether fabrics or knits. Patching our own clothes has fallen out of our everyday habits due to the low price of most wearables, however, at a time when we are asked to consume consciously and the excesses of the fashion industry reveal the regrettable labor exploitation that sustains them we need to resume these old habits.
The Japanese have been cultivating the concept of kintsugi for centuries, the art of putting back together a broken ceramic piece without hiding it scars. It is a concept that stems from the Japanese aesthetics of wabi-sabi, which propounds the acceptance of imperfection and transience and is inspired by the Buddhist notion of the three pillars of existence: impermanence (anicca), suffering (dukkha) and the absence of self (anatta). It is at its core a philosophy of dispossession, and therein lies its greatest challenge in a time in history when the cult of the individual and the fulfillment of all its needs has taken over more colectivist concerns.
However, the frugality implicit in this Eastern philosophy is not at all foreign to our condition as Westerners, being the default attitude until the advent of clothing produced in large quantities and at very low prices that the so-called economic “globalization” brought into our consumption habits. During World War II, more precisely in 1943, the British Ministry of Information published a guide recently reissued (in 2007) by the Imperial War Museum entitled Make, Do and Mend with a series of advice aimed at promoting the longevity of the scarce clothing to which the British would have access during the conflict. This booklet contains lessons ranging from instructions for washing clothes, suggestions for reusing items that are no longer in use (what we would now call recycling or upcycling), instructions on how to store garments in order to protect them from moths (“The moth menace”) and humidity, how to take care of footwear in order to prolong its use to the maximum, as well as an extensive series of advice for mending pieces or reinforcing their most fragile areas, whether woven or knitted. Long before that, Thérèse de Dillmont, the Austrian author of the Encycopedie des Ouvrages des Dames, first published by DMC in 1886, had already dedicated a few pages in her book to the repair of knitwear and her drawings are a valuable reference and a historical testimony to the practices that were already ancestral at the time. More recently, artisans like Celia Pym, Hikaru Noguchi, Flora Collingwood-Norris, Tom of Holland, Molly Martin and Kate Sekules, the mentor of #mendmarch, an event organized around the Instagram community to promote and publicize the practice of creative mending, have given a valuable contribution alongside other creatives and artisans to promote the adoption of regular mending practices, in order to build not only an environmental sustainability agenda but above all a social sustainability agenda, associating the practice of patching garments to the respect due to the workmanship that their production implied.


Thiis is a great post thanks
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