Trabalha para ti / Work for yourself

A seguir à morte recente de uma tia, coube-nos a tarefa, a mim e aos meus irmãos, de “fechar” um apartamento cheio de inutilidades, mas também de pequenos tesouros como este livro com um título premonitório: Trabalha para ti.

Premonitório para mim porque andava desde o início da “crise” empenhada num processo de sobrevivência mais do que financeira verdadeiramente existencial. Ou seja, tive a sorte extraordinária de a minha crise da meia-idade coincidir em todo o seu esplendor com a “Crise” e embora ainda não tenha resolvido a primeira e não veja jeitos de se resolver a segunda continuo empenhada nesse processo, de que o projeto da Oficina das Malhas é a face mais evidente.

A minha tia foi uma daquelas mulheres que viveu a vida inteira sem ter um “emprego”, como hoje o entendemos, mas como muitas mulheres da sua geração – morreu com mais de 90 anos – não sabia o que era estar parada e arranjava sempre com que se entreter, fosse costurar, arrumar um armário já arrumado ou atravessar meia cidade para poupar 5 cêntimos num par de luvas de borracha. No entanto, estou convencida que o livro em questão não seria verdadeiramente seu, mas do meu avô materno (esta tia era a irmã mais velha da minha mãe), um homem que teria vivido de rendimentos de propriedades agrícolas e industriais mas que por razões pelas quais seria mais ou menos responsável acabou por ficar dependente desta filha solteira que o arrastou de Odemira no Baixo Alentejo para o Porto no encalço da sua irmã mais nova.

O meu avô Aníbal era uma personagem curiosa que ao contrário do que nos faz pensar a nossa cultura de europeus do Sul supostamente imersos num sistema patriarcal vivera sempre uma vida de uma certa indulgência na sombra de mulheres industriosas que nunca paravam quietas. Era um homem engenhoso que tanto esculpia baixos-relevos em cortiça como transformava um pedaço de plástico num dente falso que arranjara maneira de encaixar entre dois dentes ainda saudáveis. Trabalha para ti devia ter chamado à atenção deste homem que não consigo imaginar a submeter-se à rotina de um “emprego” ou à autoridade de um “patrão”!

Sem querer entrar na referência a chavões como “empreendedorismo” e “pro-atividade” – que têm muitas vezes um aproveitamento político e são por isso usados de uma forma demagógica – achei extraordinário que um livro editado em 1958 formulasse já de uma forma tão cândida uma série de respostas a uma questão que muitos hoje se colocam, entalados entre a perspetiva de um emprego frustrante e mal remunerado e a necessidade de inventar um projeto pessoal que lhes permita na pior das hipóteses manter algum poder ainda que incipiente sobre as suas vidas.

Hoje em dia, o problema do trabalho – por si só ou na sua relação tensa e não rigorosamente permutável com o “emprego” – transformou-se numa questão política perdida entre obstinações ideológicas e expectativas de vida profundamente ligadas a formas de vida em que o trabalho/emprego se afirma ainda como um pilar fundamental da identidade individual.

O que um livro como Trabalha para ti nos diz do fundo da arca em que estava escondido não é muito diferente da mensagem que podemos ler nos muitos cursos e ações de formação dedicados ao empreendedorismo: a vontade persistente que continuamos a ter de recuperar o controlo sobre as nossas vidas, particularmente sobre as nossas vidas como trabalhadores nas quais – para o bem e para o mal – investimos tanto do nosso tempo e da nossa energia.

Perante um sistema – nomeadamente fiscal – que se desenha cada vez mais como uma força repressiva ao ponto de ter transformado o “emprego” numa ferramenta de alienação que a muitos níveis não se afasta muito de um regime de escravatura, é cada mais urgente procurar alternativas de vida que devolvam ao trabalho a sua dimensão humana e de realização pessoal.

Ganhar a vida tem de ser mais do que perder!

***

Following the recent death of an aunt, me and my brothers were left with the task of empting out an apartment full of useless stuff but also some small treasures like this book with a very prescient title: Work for Yourself.

Prescient for me because from the beginning of the “crisis” I was committed to a survival process that more than financial was truly existential. In other words, I had the extraordinary piece of luck of having my middle age life crisis coincide in all its splendor with the “Crisis” and although I still haven’t sorted out the first one and nor do I see the latter coming to an end either I’m still committed to this process, of which the Knitting Workshop is the most visible face.

My aunt was one of those women that lived all her life without having a “proper job”, but as many women her generation – she lived to be older than 90 – she couldn’t keep still and would always find something to do, whether a bit of sewing, clear up a cupboard that was already cleared or walk half way across town to save 5 cents on a pair of rubber gloves. Yet, I’m convinced that the afore mentioned book wasn’t really hers but my maternal grandfather (this aunt was my mother’s eldest sister), a man that might have lived off agricultural and industrial properties who for reasons for which he could have been or not responsible ended up being dependent on this maiden daughter that dragged him from Odemira in Alentejo (in the South of Portugal) to Porto (in the North) in pursuit of her younger sister.

Aníbal, my grandfather, was a curious character that unlike our strongly patriarchal Southern European culture makes us believe always lived in a certain indulgent manner, in the shadow of highly industrious women that couldn’t seat still. He was an ingenious man that could sculpt low reliefs in cork or make a fake tooth out of a piece of plastic that he then managed to stick in between two healthy teeth. Work for Yourself must have caught the attention of this man that I can’t imagine submitting to the routine of a “job” or the authority of a “boss”!

Without meaning to make a reference to such terms as “entrepreneurship” or “pro-activity” – that are so often politically used and abused – I thought it was extraordinary that a book published in 1958 would formulate answers to a question that so many of us are faced with today, stuck between the prospect of having a meaningless and poorly paid job and the need to create a personal work project that will allow us, at worst, to keep some form of power over our lives, even if an incipient one.

Today, the problem of work – by itself or in its tense and not necessarily interchangeable relationship to a “job” – has become a political question lost between ideological stubbornness and deeply rooted life expectations in which having a job is a fundamental part of individual identity.

What a book like Work for Youself tells from the bottom of the trunk in which it was hidden it’s not very different from the message we can read in the proliferation of training programs around “entrepreneurship”: our everlasting and persistent will to regain power over our lives, particularly our working lives on which – for better or worst – we invest so much of our time and energy.

Facing a system – particularly a fiscal system – that works more and more as a repressive force to the point of transforming “jobs” into a tool of alienation that for so many of us doesn’t differ much from a slavery regime, it’s more urgent than ever to look for lifestyle alternatives that will bring work back to a more human dimension of personal fulfillment.

To earn one’s living has to be more than to waste it!

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One thought on “Trabalha para ti / Work for yourself

  1. Angelina says:

    Como eu a compreendo, quando fala da coincidência das crises, das mulheres do antigamente sem emprego e sempre com tantos afazeres. Gostei da escrita, do conteúdo, e até gostaria de ler o livro que é do mesmo ano que eu. Parabéns.

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